O fim do livro
O fim do livro
Gustavo Henn – Bibliotecário
O ano de 2009 ficará marcado para sempre na vida daqueles que se cercam pela palavra escrita, de escritores a bibliófilos. De jornalistas a editores. Dois gadgets, produtos tecnológicos, foram lançados pelo maior site de comércio eletrônico no mundo, o Amazon.com, prometendo substituir de vez a leitura em papel. Trata-se do Kindle 2, lançado em fevereiro, e do Kindle DX, lançado em maio. O primeiro é a versão melhorada do original, lançado em 2007, voltado para livros. O segundo, com dimensões um pouco maiores, tem foco em jornais e trabalhos acadêmicos como Teses e Dissertações.
As vantagens desses aparelhos são inúmeras, anunciadas aos quatro ventos com fortes campanhas de marketing. As principais são a capacidade para armazenar cerca de 1.500 livros e a autonomia de bateria de mais de 24 horas. Mas, perto de um livro impresso, não parecem ser tão vantajosas assim. Vejamos. A capacidade de armazenar 1.500 livros é excelente. Nos EUA muitas pessoas estão descartando os livros quenão leem e só entulham em casa – se for fazer isso, doe para a biblioteca da comunidade mais próxima – mas antes salvam uma cópia no Kindle. O lado cômico disso é que se os livros não eram lidos antes, também não serão lidos apenas por terem ido parar no Kindle. Logo, trata-se de um embuste para aqueles que acreditam no acúmulo de livros como sinal de conhecimento.
Carregar 1.500 mp3 em um Ipod é uma vantagem, especialmente para aquelas viagens longas de 4 ou 5 horas, em que a variedade de músicas afasta o tédio. No entanto, em 4 ou 5 horas só é possível ler 1 ou 2 livros, no máximo. Assim, não faz sentido andar com 1.500 livros se você só vai ler mesmo 1 ou 2. O peso do Kindle pode até ser menor do que o peso de um livro. Mas um livro se joga em qualquer lugar, só não pode jogar no fogo. Já o Kindle, não. Torça para nunca dar uma queda em um, pode danificar a tela de cristal líquido ou, pior, os circuitos. E, claro, jamais esqueça seu Kindle em sofás, cadeiras, camas. Alguém pode sentar em cima de sua biblioteca inteira e destruí-la para sempre.
A autonomia da bateria é uma vantagem, mas ser atrapalhado com os avisos de que a bateria está acabando ou ter que se preocupar em encontrar um ponto de energia quando você poderia ler o diálogo final entre Jean Valjean e Javert, por exemplo, não é nada bom. Uma dica: quando for ler Os Miseráveis, de Victor Hugo, prefira o impresso ou não desligue o Kindle da tomada.
O fato é que para um suporte substituir outro, como ocorreu quando o papel substituiu o couro na fabricação de livros, é preciso que o novo ofereça vantagens inalcançáveis pelo suporte antigo. E as vantagens que o Kindle, ou qualquer outro suporte digital, oferece atualmente, não fazem mais do que um livro impresso. Para vingar, é preciso que o ebook ofereça uma nova experiência com a informação.
original: http://www.jornalonorte.com.br/2009/06/28/opiniao.php
